A "GRAÇA" DE FAZER UM BOLO
Gosto de cozinhar e também gosto de fazer bolos. Aliás cozinhar tornou-se uma constante tão forte na minha rotina diária que se tornou mais numa obrigação que propriamente uma atividade prazerosa que escolho de forma arbitrária. Tenho uma casa cheia e claro está, tenho que alimentar as crias e não só. Mas não tenho que fazer bolos. Mas por estranho que pareça, certo dia em que a ementa da casa foi o famoso redom (restos do outro dia) eu até poderia ter tido uma pausa culinária só que de repente dei comigo a fazer um bolo. Será que gosto mais de fazer bolos do que cozinhar? Ao ponto de voluntariamente me obrigar a preencher aquela pequena vaga de descanso culinário? Não, eu gosto de cozinhar, assim como gosto de fazer bolos. No entanto nem sempre cozinho porque gosto, mas sempre faço bolos porque quero.
Naquele dia, enquanto batia os ovos com o açúcar e via crescer uma massa fofa e brilhante perdi-me numa mistura esquisita de pensamentos, e então olhando para o movimento circulatório da batedeira pude encontrar um vislumbre de graça.
Bem na verdade aquele cenário não tinha graça nenhuma, no sentido de ser agradavelmente engraçado. Até porque eu ainda nem vos contei o cenário completo. Provavelmente vocês estarão a imaginar uma cozinha organizada com uma bacia e uma batedeira rodeada por ingredientes num ambiente calmo com uma música de fundo...mas não...não mesmo.
Vamos lá construir o cenário real daquele fim de tarde. Sim existia uma bacia, ingredientes e uma batedeira, mas à minha volta também haviam cadeiras. Cadeiras preenchidas por pequenos corpos energéticos com suas mãos estendidas numa missão firme de mexer em tudo. Não existia um ambiente calmo nem uma música de fundo, mas sim vozes de volume elevado, gritos, choro e gargalhadas. Existia sim uma cozinha organizada, mas que repentinamente havia sido preenchida por um pequeno caos de iogurtes acabados de comer, guardanapos quase que inutilizados, pacotes de bolachas abertos e copos de leite. E ali estou eu, determinada em fazer um bolo e ao mesmo tempo a questionar-me “porque estou a fazer um bolo?” ou melhor “porque escolhi fazer um bolo precisamente agora?”.
Sim porque a ação altruísta de fazer um bolo torna-se extremamente maior quando o momento escolhido é quando aquele pequeno exército de filhos invade a casa com todas as suas forças. Mas ainda me pergunto: “Será que foi um ato de altruísmo, ou masoquismo ou simplesmente estupidez?” Sinceramente não sei responder a essa pergunta de forma convicta, mas a verdade é que foi nesse cenário que encontrei graça. Sim, um pequeno vislumbre de graça. Aquela graça que nasce da bondade e do amor. Em que sua ação não provém do “tem que ser”, mas do “eu quero que seja”. Ela não depende de um ato meritório para que sua resposta seja um presente, uma dádiva amorosa.
Ali estava eu a fazer um bolo num meio de um tremendo reboliço. Aquele era o momento ideal, aquela era a hora certa porque na verdade eu não queria simplesmente fazer um bolo. Eu queria demonstrar amor e bondade aos meus filhos, queria que em minha presença eles pudessem desfrutar de alegria e entusiasmo. E apesar do seu estado impaciente e ansioso, lá estavam eles participando daquela grande obra e provando da sua massa. Eu não precisava de fazer um bolo, e muito menos precisava da sua ajuda, na realidade suas pequenas e limitadas mãos ao invés de ajudar só complicavam todo o processo.
No meio de toda aquela confusão um pequeno diálogo acontece com o meu filho de 5 anos:
Ele perguntou: - Mãe, porque estás a fazer um bolo? Eu faço anos? Vais levar para a igreja?
Então respondi: - Não filho ninguém faz anos e não preciso levar para a igreja.
-Então é para quê? É para nós comermos? pergunta ele admirado.
Ao que respondi: -Sim filho é para vocês.
Muito intrigado ele pergunta: - Mas porquê?
E eu respondo: -Porque eu quero, filho.
Não será de estranhar que aquele pequeno diálogo ainda me empurrou mais para meditar naquilo que estava a acontecer. Apesar das minhas imperfeições enquanto mãe e mulher juntamente com todas as exigências do dia que se acumulam num sem fim de stress e agitação, em minha pequena ação e decisão eu vi um vislumbre de graça. Uma graça que não vem de mim, mas apenas é um reflexo da grande graça de Deus. Naquele dia eu proporcionei aos meus filhos um pequeno momento de graça, mas quantos momentos de graça escandalosa nos é oferecida diariamente por nosso pai celestial? Até em momentos de escuridão e caos a graça está presente.
Até mesmo aqueles que ainda não são filhos de Deus usufruem diariamente da graça. Mas os que são filhos são agraciados numa medida muito mais extravagante. Eles vivem em outra dimensão da graça, naquela dimensão que permite aos pequenos filhos levarem suas cadeiras para perto do Pai, subir nelas e participar em sua obra desfrutando de sua presença.
Compreender a graça de Deus é perceber que suas dádivas diárias não são originadas em obrigação ou mérito humano, mas simplesmente vêm de seu amor e bondade.
Viver na graça de Deus, é ser surpreendido por presentes que nos fazem questionar “porquê?” e ouvir apenas dizer “porque eu quero te dar filho.”
Quando de forma consciente experimentamos a graça de Deus, nos tornamos pequenos refletores dela. A graça que se manifesta diariamente em nossas vidas através de pequenas ações no nosso quotidiano. Eu encontrei-a a fazer um bolo, mas afinal ela pode ser encontrada em qualquer momento que decidirmos demonstrá-la porque na verdade a nós ela está sempre sendo oferecida.
Sara Rosa
Crédito Foto: Foto criada por Kireyonok Yuliya - br.freepik.com</a>
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